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domingo, 22 de maio de 2011

Os “livro” do MEC

by Jefferson Cassiano

Pessoal, esse texto foi escrito pelo meu marido. Vale a pena ler um outro ponto de vista sobre a polêmica do livro aprovado pelo MEC.
Opinem!
Beijos
Chris





                 O livro da coleção “Viver e Aprender”, distribuído pelo MEC aos alunos e professores das salas de EJA e escrito pela professora Heloísa Cerri Ramos, segue preceitos teóricos que já nortearam os trabalhos de educadores respeitados, como o brasileiro Paulo Freire.  Para a linguística, não há um jeito “certo” e outro “errado” de usar a língua. Em lugar de correção, os linguistas preferem usar a ideia de adequação.  A metáfora da roupa é sempre muito bem-vinda nesta hora: você não costuma ir de terno à praia, muito menos de sunga à reunião de trabalho. Da mesma forma,  há uma variante linguística para cada contexto. Ainda assim, a página 14 do livro, na qual se afirma que uma pessoa pode dizer “os livro”, tem causado dores de alma em inesperados defensores da norma-culta.
            Não há qualquer inverdade no livro do ponto de vista teórico. Os conceitos de adequação e inadequação são fundamentais para viver num contexto de diversidade. Professores e alunos devem mesmo trocar as palavras “certo” e “errado” por “adequado” e “inadequado”, além de substituir os conceitos por trás dos vocábulos. Essa mudança conceitual proposta pela linguística permite ao professor acolher os diversos falares trazidos para a escola e ajuda o aluno a destruir a barreira de preconceito em relação ao colega que, por ventura, fale “os livro”.  A língua passa a ser uma forma de inclusão quando vista assim. Há, no entanto,  um equívoco no texto de Cerri. Equívoco que nem é pedagógico. É didático.
            A maneira escolhida por Heloísa para expor os conceitos de adequação e inadequação não parece ser a mais indicada para tratar desse assunto em sala de aula. Do jeito que foi escrito, com afirmações do tipo “você pode falar ‘os livro’”, em formato de diálogo com o aluno, o texto tem status de liberação para o uso indiscriminado dessa variante. Na continuação do texto, até há uma observação de que o aluno, quando assim se expressa, “pode sofrer preconceito linguístico”. Falta deixar claro que a variante inculta da língua pode ser usada em determinadas situações e que, em outras, deve ser substituída pela norma formal aprendida na escola, não para evitar o preconceito, mas para permitir que o aluno consiga, por exemplo, um desempenho melhor numa entrevista de emprego.    Uma hipocrisia necessária.
            Antes de ficar revoltado com “os livro” do MEC, lembre-se de que a página 14 em questão é destinada à educação de adultos com uma história de vida que facilita a compreensão e a aplicação de conceitos relativos ao uso da língua.  Pense, ainda, que um livro, em sala de aula, é apenas um ponto de apoio e de partida. O professor, no uso do material, tem toda a liberdade de ampliar a discussão proposta pelo livro e deve fazer isso.  Por último, pense e responda: se você ficou tão espantado com essa história e acredita que há mesmo certo e errado na língua, deve ser capaz de dizer se a frase a seguir está “certa” ou “errada”: “a maioria dos livros são grandes, mas, antigamente, havia alguns mais pequenos”.  Quando assumimos a postura de fiscais de uma língua, temos que saber com exatidão o que é e onde está esse tal de certo.   

Um comentário:

  1. É sempre bom saber de determinado assunto sob diferente ponto de vista. Francamente não havia pensado dessa forma, bom pra eu abrir minha cabecinha, né? Como apaixonada pela língua portuguesa não posso negar que me doeu sim, porém analisando sob essa ótica a dor fica mais suave, rs.
    Muito obrigada por disponibilizar Chris, foi de grande valia!
    Beijos!

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