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Blog de histórias reais e de ficção.
Um lugar para expor opiniões que provoquem dor ou delícia!
Qualquer semelhança com histórias ou comportamentos reais poderá ter sido mera coincidência. Ou não!



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

- Boa noite! - Boa noite!






Vidrada na TV preto e branco, protagonista naquela sala simples de sofá de plástico e mesa azul turquesa, Diva absorvia cada segundo de sua série preferida. Lamentava intimamente não saber as cores do estofado florido, onde a numerosa família retratada passava parte do tempo reunida.

Imaginava as cores dos vestidos das meninas, sempre com laços na cabeça. Tinha um carinho especial pela mais velha que apesar do sorriso, trazia no olhar certa tristeza. Sempre se perguntava o porque.

- Talvez por ter um grande número de irmãos e irmãs para dividir a atenção dos pais e avós, ou pelo peso da responsabilidade, talvez não queira mesmo casar-se com o tal do médico, questionava.
Era início da década de setenta e Diva resolveu, - Quando tiver uma filha, darei a ela o nome de minha personagem preferida.

Quase dez anos haviam se passado quando ela conseguiu realizar seu sonho. Dez anos e muitas histórias para dividir e muitos sonhos para realizar com aquela que seria sua boneca.

Diva casou-se com o primeiro e único namorado e logo tiveram um filho. Ficou tentada a chama-lo de John, mas pensou que seria demais. Em seguida vieram mais dois meninos e ela chegou a pensar que a tão desejada menina, jamais chegaria. Cinco anos depois, em março, ela chegou. Tinha muito cabelo, nariz arrebitado e era ligeiramente estrábica. Nelson, o marido achou a menina feia e Diva ralhou com ele,

- Recém-nascida, marido. Depois melhora, fica bonita. Você vai ver!

Os anos foram passando, a menina crescendo junto com os cabelos volumosos e os olhos tortos.
Diva às vezes, se pegava olhando para filha com tristeza. Ela em nada lembrava a menina de laço no cabelo e vestido rodado da série de TV. Sua filha era magra demais, cabeluda demais, vesga demais e para desespero dos pais, um dia, apareceu com brinco no nariz e tatuagens pelo corpo. Era muita esquisitice. 

Apesar de tudo, ela era doce e trazia tristeza no olhar, não se sabe se pelo estrabismo ou pela alma inquieta.

Os anos foram passando e Diva ficava cada vez mais preocupada com a filha que resolveu ser modelo. Fotos dela apareceram na internet, num site de índole duvidosa.

- Ah, comadre. Olha essa menina, disse a madrinha. Jandirinha começou assim e agora tá perdida. O Zé me contou que tem foto dela com pedaço do peitinho de fora, falou em tom alarmista.

Sentada no sofá, ainda aquele de plástico, olhando para a TV, agora colorida, Diva sem qualquer esperança, lamentou não ter mais a série para se distrair. Fechou os olhos, fez um passeio mental pela casa dos “Watsons” e chegou mesmo a ouvir:

- Boa noite, John Boy!
- Boa noite, Mary Ellen!





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