Cena do 2a dia de Gravação. Morro do Pico, prova de imunidade.
Quando meu telefone tocou em novembro com a pergunta: Chris, você fala inglês? Nunca imaginei que fosse viver uma experiência tão bacana na vida.
Na verdade quase deixei escapar, porque honesta que sou respondi a pergunta acima com um sonoro NÃO!
Ainda sim, o Edgar insistiu: Mas nadinha? Pelo menos você entende?
Bom, meu inglês é macarrônico, daqueles que aprendemos na Cultura Inglesa quando somos adolescentes. Entendo bem, mas falo mal.
Era uma emergência. Uma equipe de Santa Catarina viria a Ribeirão com dois indianos para conhecer a cidade e analisar a possibilidade de rodar um reality show por aqui. Para viabilizar, se a cidade fosse aprovada, precisariam de uma produtora local.
Pensei: O que pode acontecer de pior? Fazer mímica com os caras? Sou ótima em mímica. Dificilmente perco nas jogatinas que fazemos aqui em casa.
Durante duas semanas fui atrás de tudo o que eles me pediam por telefone e e-mail. Locações, refeições, banda, artista plástico, dupla sertaneja, autorizações, pessoas para ajudar no set...
Vinte dias depois chego ao JP e encontro 2 indianos, 1 argentino, 1 carioca e o João, dono da produtora. Um paulista morando em Floripa.
A afinidade foi imediata. Durante as visitas às locações – foram pelo menos 8 - Falamos muito, rimos muito e fizemos muita mímica.
Tudo resolvido, cidade aprovada e eu contratada.
Mais um mês e o Sebas, argentino gente boa demais, voltou a Ribeirão para acertarmos os detalhes.
Importante dizer como foi delicioso todo o processo. O apoio de todo o pessoal da prefeitura, das secretarias, da guarda municipal da polícia militar e principalmente da minha amiga Mara Cabral que se desdobrou em várias para nos ajudar.
Final de semana passado foi uma loucura. Telefone toca sábado, nove da noite – estou com meu marido tomando um choppinho:
– “Chris, preciso de 5 motoqueiros, 1m80 – magros, com habilitação é claro, morenos de preferência, para dublês dos Roadies. Precisamos de uma Van para trazê-los a São Paulo na segunda. Eles tem que estar aqui as 9h da manhã.”
Não costumo usar esse termo, mas juro que pensei: “Vai Christiane, chupa essa manga!”
Telefone a mil, Facebook, Twitter e no domingo às 15hs já estava com tudo resolvido.
Na segunda-feira eles foram chegando aos poucos. Primeiro 7, depois 40 e por último- quase 9 da noite - os Roadies e os que faltavam pra completar a lista dos 64.
Tinha de tudo: indiano negro - chamados Dravidianos - de bigode, indiano moreno sem bigode, indiano de barba imensa e turbante, indiano careca, indiano lindo de morrer, indiano triste de feder.
Um espetáculo. Tudo muito diferente. A cultura, a comida, a língua. Não conseguia ter noção do que eles falavam. Procurava o tempo todo a tecla SAP em vão.
Inglês? rsrsrs Foi legal saber algumas coisas, ter um bom vocabulário. O fato de ser péssima em concordância não fez a menor diferença. O inglês da maioria deles era como o meu.
Passei 3 dias imersa num universo paralelo e hoje cedo quando percebi que já tinham ido embora me peguei com lágrimas nos olhos. Vou vê-los outra vez? Probabilidade menos 3.
Entrei na internet, assisti a todos os vídeos que pude sobre o programa. Revi os rostos dos estranhos indianos tão famosos por lá. Sou assim: uma pisciana que se apega.
Meu rosto cor de salmão e meu bronzeado “caminhoneira” são as marcas que ficaram além das fotos e de tudo na minha memória, é claro.
Difícil descrever a relação que se estabelece em produções assim. De repente somos todos amigos de infância. De repente você ouve seu nome sendo chamado com um sotaque estranho e percebe que sabem quem você é, e que naquele momento precisam de você.
O reconhecimento da Prefeita diante do meu esforço em divulgar nossa cidade, o assédio da mídia querendo saber o que estava acontecendo, meu nome nos jornais. Tudo isso é muito bom. Minha vaidade confessa esse pequeno pecado.
Mas, ver 60 indianos e vários brasileiros desconhecidos num multirão procurando minha chave do carro perdida no set de filmagem é a cena que nunca mais vou esquecer.
Obrigada Edgar de Castro! Obrigada por lembrar de mim. Obrigada por insistir.


