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Blog de histórias reais e de ficção.
Um lugar para expor opiniões que provoquem dor ou delícia!
Qualquer semelhança com histórias ou comportamentos reais poderá ter sido mera coincidência. Ou não!



sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dores e delícias do primeiro amor.


Há uma máxima que diz que o primeiro amor a gente nunca esquece. Deve ser verdade porque sei exatamente quando o meu começou.
Foi num sábado de 1971, calor infernal em Pontal, onde na época meu tio era o prefeito.
Fomos, meus primos e eu, ao Cine São Carlos. O filme, um western com Yul Brynner.
Sentado no meio daquela molecada, ele. Lembro do momento que o vi e do alto dos meus sete anos disse para minha prima:
- “Quero me sentar atrás daquele menino. Acho ele bonito.”  
Detalhe, como assim bonito? Eu só o havia visto de costas. Ela, com dez anos e bem mais saidinha que eu, disse:
- “Atrás por quê?! Vamos é sentar do lado.”
 E lá fomos nós. Coração batendo forte precisei de coragem para me sentar. Nem olhei para o lado.
Já era a segunda ou terceira exibição do filme naquela semana, e ele já havia assistido. Passou quase todo o filme contando o que ia acontecer. Sinceramente, nem me lembro do rosto dele naquele dia. Sei como era a tela do cinema e algumas cenas do filme, que não sei o nome. Sei também que desenvolvi uma fixação pelo ator principal.
Foi amor a primeira vista. E um amor tão puro, tão forte que até pouco tempo atrás, acreditava que éramos almas afins que tinham se reconhecido.
O sentimento alimentado pelas minhas fantasias se fortalecia. Ele era o meu príncipe encantado. Lindo, inteligente, de boa família. Aliás, o assunto família era um caso a parte. Tínhamos tios casados, primos comuns e diversos outros elos. E eu achava que tudo isso era a prova da minha teoria sobre almas gêmeas.
Os anos foram passando, mas o “amor” que eu sentia não. Pelo contrário, ia aumentando, ficando mais esperançoso.  Aos 13, arrumei um namoradinho na cidade, com a clara intenção de despertar ciúmes. E não é que deu certo? Uma semana depois, lá estava ele, vindo em minha direção no clube da cidade. – “Meldels, o que faço agora?”
Conversamos, ele me pediu em namoro e eu, claro, aceitei na hora.
D. Tereza, minha mãe, tinha uma regra clara: 10 horas em casa. Quando o relógio da igreja bateu nove e meia senti um medo danado. Sabia que tinha que ir embora e que isso significava dar o meu primeiro beijo nele.
Os meninos daquela época eram cavalheiros e nos acompanhavam até a porta de casa. Lá fomos nós, caminhando pelas ruas de Pontal City, conversando de mãos dadas. Na esquina ele parou. – “Jesus, é agora”!!!
Passei a noite em claro, pensando em cada detalhe, em cada frase, em cada olhar.
Foram duas semanas mágicas. Começava a conhecer sua forma de pensar. Podia ouvir sua voz, seu riso. Era o amor platônico mudando de status, passando a real.
O namoro durou pouco, não suportou os 320 km de distância que nos separava. 
Como aceitar o fim? Fui do paraíso ao inferno, com milhões de diabinhas assediando o que  considerava meu.
Mais alguns anos e lá estava ele de novo, ao meu lado, pedindo pra voltar. Meses de paraíso seguidos de outros anos de inferno. E essa fórmula se repetiu mais duas ou três vezes.
O inacreditável é que no meio de tudo isso, eu sabia tudo sobre ele. Sonhava com coisas que aconteciam antes delas acontecerem, tinha premunições acordada. Sentia o que ele sentia. Sabia quando ele sofria, e sofria junto. Ninguém precisava me contar nada.
Passei a planejar minha vida para estar sempre por perto.
Quando a mãe dele adoeceu, foi no meu ombro que ele chorou e mostrou seus medos e inseguranças. Era Carnaval de 82 e foi a última vez que estivemos juntos. Conversamos muito, rimos de verdade e choramos sem reservas. Foi quando ele me ensinou a dirigir, quando ele me fez ouvir Jane Duboc, quando percebi que ele era mesmo tudo aquilo que eu acreditava. Meses depois a mãe dele morreu. Peguei o primeiro ônibus e passei todas as horas do velório e do enterro junto dele em silêncio compactuando com sua dor.
Depois disso, nossas vidas tomaram rumos diferentes. Acabei me rendendo a São Paulo e fui fazer faculdade, trabalhar com propaganda, conhecer pessoas. Namorei, fiquei noiva.
Numa noite em maio de 88 o telefone de casa tocou meio fora de hora. Desci a escada para atender e antes mesmo de tirar o aparelho do gancho sabia qual era a notícia:
- “Chris, tudo bem, você tá sentada?” - era meu primo Eduardo. Eu imediatamente perguntei a ele
– “Tudo bem, Du, quando é que ele vai casar? E pra quando é o nenê?“. Atônito ele retrucou:
- “Quem foi que te ligou pra contar?” e eu respondi:
- “Ninguém precisou me contar Du. Eu já sabia”
Naquele dia, imaginei que o cordão energético que nos unia seria rompido com o casamento.
Nos anos seguintes, nos vimos algumas vezes em casamentos, aniversários, festas. Meu coração sempre parecia que ia sair pela boca quando sentia a presença dele.
Sonhei com ele durante muito tempo. Um sonho recorrente, onde eu perguntava: - “Você é feliz?” Nunca ouvi a resposta.  
Sábado passado, no shopping eu o vi de longe, com a mulher e o filho e tive certeza que hoje, quarenta anos depois do encontro no cinema, não sou mais capaz de saber o que ele sente. Não sei o que ele faz e nem sei mais quem ele é de verdade.
Só sei o papel que ele tem na minha história: O menino lindo e gentil, que me ensinou numa tarde quente de verão o significado da palavra amor.

14 comentários:

  1. Isso é verdade mesmo???? amei...

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  2. Que lindo!
    O mundo dá voltas e nem sempre para onde as pessoas desejam.
    Mas, por sua vez, o ser humano é incrivelmente adaptável às circunstâncias que não são as esperadas. E a vida continua, sempre com alegria no coração.
    Um bjo.

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  3. Que história mais linda de verdade...

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  4. Vi vc no blog da Gabriela e vim te conhecer.
    Adorei o texto. Virei seguidora.
    Bjs
    www.milipavan.blogspot.com

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  5. Que história mais linda....
    Me fez reviver meu primeiro amor!
    Parabéns pelo blog Chris!
    Um beijo
    Carola Duarte
    www.caroladuarte.com

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  6. Olá meninas, a história é verdadeira sim!!! Obrigada pelos comentários. Beijos a todas

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  7. Odeio esse rímel, pois quando choro, ele arde pacaramba.
    Você se engana.
    O elo nao foi rompido, pois o amor verdadeiro nunca morre. Ele apenas se retrai.
    Se morreu, é pq nao foi amor.
    E depois do que li, duvido que nao tenha sido.
    Aguarde notícias....

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  8. Lu querida !!!
    Claro que um amor assim nunca morre. Ele simplesmente se transforma !
    Que bom que leu este também !! Tentei te procurar no twitter pra deixar um recado não achei.
    Apareça sempre e acompanhe as próximas.
    Beijos com carinho

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  9. Que lindo Chris !!!
    Vc escreve de maneira apaixonante.
    A história é linda, e a riqueza de detalhes me fez lembrar do meu primeiro amor tbm..rs
    Mesmo com a sua vida super corrida, vê se encontra um tempinho pra continuar nos proporcionando a delícia de viajar nos seus textos.

    Bjks

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  10. Chris, primeiro Parabéns... olha só, você esses dias me oferecendo seu ombro pra eu chorar, parecíamos até primas e eu nem conhecia esse seu dom.... segundo, bom, como dizer que me deu esperanças e alicerce para aceitar o que vier e terceiro... de uma passadinha no meu pra ver se estou no caminho certo... beijo!

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  11. Linda a históriaaaaa!!! Ai é tão bom isso!!! "E viva os loucos que perceberam o que é o amor"
    beijosss

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  12. Oi, Chris, gostei muito do texto! Também sou escritor, poeta... (inclusive de Facebook). Quero aqui confessar que "roubei" a bela decoração de seu blog - com o devido crédito - para ilustrar um poema em meu perfil. Grande abraço.
    http://www.facebook.com/pedrojorge2

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  13. Bom dia Chris. Estava aqui olhando fotos do meu amado Yul, vi essa de Sete Homens e Um Destino na tela de cinema e acabei lendo todo o texto. Acredito que o filme que vocês estavam assistindo era Adiós, Sabata de 1971. Me emocionei com a tua história, alguns amores duram a vida toda. Tem Facebook? Fique com Deus e sucesso sempre.

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    Respostas
    1. Olá Andressa.
      Fico feliz que tenha lido e gostado.
      Tenho sim Facebook. Você me encontra como Chris Carolo.
      Beijo Grande.

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